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A boca não precisa de ser esterilizada, precisa de equilíbrio

  • Foto do escritor: Ana Diaz
    Ana Diaz
  • há 9 horas
  • 3 min de leitura


Durante muitos anos, foi-nos ensinado que uma boca saudável é uma boca limpa, desinfectada e livre de bactérias.Esta tem sido a mensagem dominante na odontologia moderna.


Colutórios potentes.Dentífricos cada vez mais agressivos.Agentes antibacterianos de uso diário... Tudo assente numa ideia muito clara: eliminar.


No entanto, quando começamos a observar com mais atenção, na prática clínica, nos pacientes, na evolução real dos tratamentos, algo deixa de fazer sentido. Porque a boca não é uma superfície inerte. Não é um azulejo que precisa de ser esfregado até brilhar. A boca é um ecossistema vivo, complexo e dinâmico. E está profundamente ligada ao resto do corpo.


A boca é um ecossistema, não uma cavidade isolada



Na cavidade oral coexistem centenas de espécies bacterianas, bem como fungos e outros microrganismos.Este conjunto forma o que chamamos de microbioma oral.

Um microbioma que actua como primeira barreira contra patógenos, participa nas fases iniciais da digestão, modula a resposta inflamatória, comunica com o sistema imunitário e influencia o equilíbrio de todo o sistema digestivo.


Nem todas as bactérias são um problema. Na verdade, muitas são essenciais para a saúde oral. Por isso, quando falamos de saúde oral, o objectivo não deve ser a eliminação indiscriminada, mas sim o equilíbrio.


O que acontece quando tentamos “esterilizar” a boca


Na prática clínica, observamos cada vez mais pacientes que “fazem tudo bem” e, ainda

assim, apresentam:


  • Cáries recorrentes

  • Inflamação gengival persistente

  • Hipersensibilidade dentária

  • Bruxismo e tensão orofacial

  • Queixas digestivas associadas


Quando olhamos para além do sintoma isolado, surge frequentemente um padrão comum: um microbioma oral alterado.


O uso prolongado de colutórios antibacterianos, dentífricos agressivos ou abordagens excessivamente mecanicistas pode levar a uma disbiose , um desequilíbrio que torna a boca mais vulnerável, e não mais protegida. Menos resiliente. Mais reactiva.


Boca, digestão e sistema nervoso: uma relação inseparável


A boca é a primeira porta do sistema digestivo.O que acontece aqui condiciona todo o processo subsequente.


Um microbioma oral alterado pode contribuir para:

  • Digestões difíceis

  • Inflamação intestinal

  • Respostas imunitárias desreguladas

  • Estados inflamatórios crónicos


Além disso, do ponto de vista da odontologia integrativa, a boca não serve apenas para digerir: regula. A língua, a respiração, a deglutição e a masticação estão intimamente ligadas ao sistema nervoso autónomo.


Não é por acaso que muitos pacientes com desequilíbrios orais apresentam também stress crónico, bruxismo, perturbações do sono, deficit de atenção, hiperactividade, desequilibrios emocionais... A boca fala, mesmo quando ainda não sabemos escutá-la.


O meu enfoque clínico: função, biologia e respeito


Enquanto médica dentista especializada em reabilitação e reeducação neurofuncional orofacial, o meu trabalho não se limita a “arranjar dentes”. Parte de uma visão mais ampla.

Uma visão sustentada em três pilares fundamentais:


  1. Respeitar a biologia

  2. Restaurar a função

  3. Compreender a boca como parte de um sistema maior


Este enfoque integra correntes actuais da odontologia biológica e funcional, bem como a experiência clínica diária.Mas, para além de teorias ou escolas, a escuta ao paciente de um modo global é fundamental.


Minha irmã e eu decidimos criar um dentífrico diferente


A partir desta forma de entender a saúde oral, surgiu uma pergunta inevitável, Faz sentido recomendar produtos de higiene diária que alteram o mesmo microbioma que tentamos proteger na prática clínica? Para nós, a resposta foi clara.


Foi por isso que, juntamente com a minha irmã, também médica dentista, decidimos desenvolver um dentífrico que respeita o microbioma oral e, por extensão, o equilíbrio de todo o sistema digestivo. Não como um produto milagroso. Nem como uma solução universal. Mas como uma consequência lógica de uma forma específica de compreender a saúde.


Primeiro veio a clínica.Depois, a necessidade.E só então, a criação.



Prevenir não é limpar mais, é compreender melhor


A verdadeira prevenção não passa por:


  • Escovar com mais força

  • Utilizar produtos cada vez mais agressivos

  • Tentar “matar” mais bactérias


A prevenção real começa quando:


  • Respeitamos a biologia

  • Restauramos a função

  • Educamos para a consciência corporal

  • Compreendemos que a boca não está separada do corpo


Porque uma boca saudável não é uma boca estéril.É uma boca em equilíbrio.


Este blog nasce com um propósito claro:partilhar uma forma de exercer a odontologia mais consciente, mais funcional e mais respeitadora do corpo. Se chegou até aqui, é provável que já intua que a saúde oral vai muito além dos dentes. E este é apenas o começo.

 
 
 

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